quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Envelhecer

 De repente trinta e cinco
                            e eu aqui, sem saber

 

Desde 2020
O tempo escolheu ser
                        outro

Confuso

1 ano em 3, três em um

Quantos eu ganhei
                e quantos eu perdi de mim?

Vai ver
vai lá
Sem entender

Se ainda consigo ANDAR / MUDAR / MOVER
                  POESITAR? 
Ser...

2026 e eu aqui
a noite quente
o papel branco
e a falta de uma janela / de uma Pessoa / da Tabacaria

A me puxar para a realidade da minha cama de cobertor de algodão
quente

(falta de um ar condicionado
                         controlado
                         congelado - no tempo -?)

O csalor derrete
como Picasso molda o espaço! ...
                                                 ... e me desinteressa 
de tudo

Marasmo e falta

De sentido / de motivo / de sentir - volir - mover!!!
mas para onde?
(ou para quê?)

                        Envelhecer

Em anos recentes é isto
na matemática confusa dos tempos
nos desencontros de Kronos e Kairos
É ter crise dos quarenta aos (quase) trinta e cinco

De nota positiva
só se encrisa
se envelhe (em veloz teste)
quem está vivo 

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Teve um tempo que eu me dizia escritor

 Vontade de escrever um poema

Um círculo pelo chão:

Anátema.


O que a mente cria,

Não à acompanha a mão…


Desejo de vomitar formas,

Palavras que dão forma ao desejo!

Desenhos pra ir além das palavras,

Novas letras, universo em ensejo!


Acelero… Rodopio …


Grito

Berro!

Derramar a tinta

De querer tanto

De saber que já achou

E não consegue mais encontrar


(O fluxo

sem nome

O transe

O espanto

O antes)


Lembra daquele poema sobre cebolitos na rodoviária Humberto?

Eu já fui capaz disso

E você também!!!

Talvez tu ainda sejas pois, pois é, paramos os papéis

Em que escrevíamos poemas e ideias

Folhas de caderno escolhidas a dedo

Selos

Descoberta na caixa de correio


Eu já fui capaz

De poesia


(E agora me foge

A anatomia

De um poema de impacto…)


Falta de hábito?


Ou remédio pra não vomitar?

Fluox-e-tina 

Foge o tino

O tato

o raro ato


Eu

Me perdi

De mim.


Estou cansado de viver assim!

Isso sim!

Ódio! Vermelho!Risco!Kratos!

Machados


Destrambelho contido

Que não reconheço

Mas também não sei

O que faço?


Tenho é saudades de mim.

domingo, 24 de abril de 2022

Herói real

 Você

Meu herói de ônibus

Oferecedor de bancos para velhinhas

me faz todo dia lembrar

que se Hércules existiu 

se sequer passou perto de existir

Devia de também levantar dos ônibus gregos

(carruagens gregas, talvez?)

Se não for pelas pequenas gentilezas,

mais que as grandes proezas,

É melhor que Hércules seja mesmo,

ao final,

Só um mito bobo

e você (ainda bem, é) real

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Um dia

 Um dia vou organizar meus poemas

Escrever um livro

De palavras anátemas

A traduzir meu destino 


(Passado)

Um dia vou expor meus folículos

Lente de aumento

Pelos distorcidos, tão perto e melífluo 

Que esconde o intento


(Eu minto)


Um dia sujo em vinho tinto

Uma capa gasta do tempo

Abrirá para um tomo indistinto

De um caderno de jovem romântico 


(Perdi a rima. Droga!

Mas também

Já perdi o amor. Duas vezes na história

Ou projeção? Ou tramoia? Não confiem ((não confio)) nos poetas da hora

Pessoa já avisava)


Um dia talvez essas palavras

Que saem sem filtro de minha alma

Possam ressoar em algum lugar d’outro estar

Ser 

As vezes me confundo porque o bonito do verbo to be

É exatamente a imanência e a identidade fundidas 

I am é transitório 

No português não

Triste divagação 

Estou só a enrolar

Pra terminar um poema

Que também é fuga

Do compromisso do livro que fica pra depois

Do revirar intranquilo de tudo que já expus

De olhar pros meus poemas e filtrar minhas pendências

De terapia

E saudades

De uma alegria

Do que ficou…


Um dia irei publicar versos

Que revelarão

Aquilo que vazando de mim

Desmonta minhas barragens

Me destrói

Me consome

E me faz outra forma da água

Da alma que é fonte

E se deforma

Mas não sei esvai 






segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Gaveta 2019

 Tinha aquele CD da Aliesha que me apresentou ao rock noventista. E eu sei que ali tem gravado, entre outras músicas, Stairway to Heaven. Que apropriado. Escada do céu, que ela comprou, que eu descobri nas memórias de amor. Tinha o origame de dragão que ele me fez, Ele, que me ensinou sobre o carinho e o amor que hoje ofereço por aí. Tinha o carrinho que ela me deu, com um parabéns em japonês. Tinha o apito de jaguar. Três pokemons do Daniel. E o anel de serpente do meu avô escocês. Tinha a bebida que jurei beber com Júlia e Rômulo, e que está selada até hoje em idioma tcheco. Tinha foto do Diretório Acadêmico, ah, a política! Foto do intercâmbio. Foto da vez em que viajei com meus pais por Baltimore depois de ser demitido do meu emprego americano. Tinha uma foto, olhe só, de quando eu fiz capoeira. 7 anos. Um sorriso tão incauto. Tão feliz... ô paz. Tinha 13 cartas, que troquei com Humberto. Ah, Humberto, tinha toda sua poesia! Obrigado rapaz.

Tinha, bem lá no fundo, entre papéis, fotos e uns clipes passados, um segredo importante:

Que eu decidi, não vou contar por aqui 

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Maturidade

I. Prelúdio Astrológico

Saturno voltou pra me jogar na lona
e dizer que não se brinca com as previsões astrológicas
que mesmo fantasiosas, internalizei 
me jogar na lona e dizer: AMADUREÇA

Que já passou da hora

Saturno e suas mais de oitenta luas
comandadas pelo Titã do Tempo 
Reviraram incontrolável o meu mar interno
Oitenta vetores de maré em direções divergentes
e nuvens magnetizadas em auroras transcendentes
Tempestades frequentes, vórtices permanentes
me desorganizam de um jeito quase esquizofrênico

Cai, quebrado, e desfeito

Saturno, impiedoso com seu núcleo duro
Trouxe dias curtos, achatados em minha anedonia
e de ar pesado, em atmosférica Des-energia
que me deixaram, frequentemente, deitado
pesando o travesseiro na cabeça

Mas não esqueça:

Saturno, nesse retorno descaralhado
Promete inaugurar, com seus mil anéis pesados
a esperada era de Aquário
que desde os anos 2000 eu já ouvia
como esperança de uma vida mais bem quista

Tomara

Por Saturno derrubado,
eu perco a força
mas não a espera-verde
de crescimento 
e significado

II. Definição

Maturidade
é olhar para o espelho do banheiro
e entender que já não sou criança
para tentar, bobo e faceiro
resolver tudo com promessa e esperança

Maturidade
é saber que a palavra, escrita ou falada
é mesmo como a flecha, e atirada
tal qual à outra flecha, do tempo, vai sempre à frente
e não há retorno que não a reação da ação vigente

Maturidade
é acolher essas lições que vieram práticas
porque a teoria, até lê-se bonita
mas pouco modifica as forças pragmáticas
que só se sente vivendo a vida

Maturidade
É entender que o dicionário está errado
e ser adulto não é o último estágio
do permanente vir a ser humano
Ser adulto nem é consenso sano 

Maturidade
é assim, por exclusão, por divergência literária
Não ser mais um eu-criança desatento 
É aceitar, de queixo erguido a mortalha
das consequências /desejadas ou não/ 
de nosso intento

III. O espelho

vinte e nove anos
e fios de cabelo brancos
perdidos, agora, até no queixo
fio-de-barba, grosso, crespo

que eu arranco

e depois passo um creme frio
em vaidade que sei ser combate perdido
às rugas que dobram meu sorriso
E me fazem perceber o inesquecível:
estou envelhecendo
a olhos vistos

E então
talvez por isso
me olho a tento

e percebo no halo de meus olhos velhos
uma rima de firmeza, e calmaria, e também mistério

E entendo
que o entalhe duro desse reflexo secreto
só mesmo a dureza da vida
ralando joelhos sem anestesia
poderia esculpir etéreo
em minha córnea cor de pedra
em minha íris agora de homem férreo

No seguir do escrutínio então enxergo
outro fio
e mais outro, branco e tenro
e desisto

da empreitada do arranque

e assumo
as lições de saturno
e os segredos do tempo
que vêm, querendo ou não querendo

se já não sou jovem
ao menos sou
mais sério
mais velho
mais duro

Maturo

IV. Arrependimentos

Eu os carrego
e é deles todo esse poema, o desenho das minhas rugas, e a cor dos meus cabelos
Peço perdão
por quem fui até aqui
e faço oração
de sempre saber
assumir o erro, e aceitar o enterro, e carregar o peso
do que me molda para que eu admita aqui
ser imperfeito

V. Prece

Que não esqueça, de mim ou do outro
que fios interligados, partes do todo
devemos ambos ser cuidados, e respeitados, 
como surgimos ao formo;
Que eu reconheça o meu ser adulto
e embora mantenha atenção à criança
para que saia, e brinque, quando preciso
não a deixe assumir as rédeas de minhas andanças;
Que eu caminhe pela mata paciente
os pés calçados, os passos quietos, mas firmes, 
a arma em riste, mas as flechas de minhas palavras guardadas, 
usadas para me proteger, e não para ferir outrém, 
no explorar da mata;
Que eu saiba peneirar os sonhos e os quereres,
e combinar decentemente os seus aromas
no planejamento do alimento que pretendo me servir
Nem todos os sabores dos planos combinam
Crus muitos deles são tóxicos
E se demoram no fogo, a fome da alma pode não saber aguardar;
Que eu escale a montanha, diligente
E abrace no reflexo da pedra a minha sombra, parte essente
E persista na trilha da subida sempre à frente
E aceite o abrigo do mal tempo que se apresente
E o prazer do bom tempo quando se estende
E não esqueça, jamais esqueça, de alma e mente:
O pico da montanha é onde estão meus pés,
independente;

Amém




Envelhecer

 De repente trinta e cinco                                    e eu aqui, sem saber   Desde 2020 O tempo escolheu ser                        ...