domingo, 24 de abril de 2022

Herói real

 Você

Meu herói de ônibus

Oferecedor de bancos para velhinhas

me faz todo dia lembrar

que se Hércules existiu 

se sequer passou perto de existir

Devia de também levantar dos ônibus gregos

(carruagens gregas, talvez?)

Se não for pelas pequenas gentilezas,

mais que as grandes proezas,

É melhor que Hércules seja mesmo,

ao final,

Só um mito bobo

e você (ainda bem, é) real

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Um dia

 Um dia vou organizar meus poemas

Escrever um livro

De palavras anátemas

A traduzir meu destino 


(Passado)

Um dia vou expor meus folículos

Lente de aumento

Pelos distorcidos, tão perto e melífluo 

Que esconde o intento


(Eu minto)


Um dia sujo em vinho tinto

Uma capa gasta do tempo

Abrirá para um tomo indistinto

De um caderno de jovem romântico 


(Perdi a rima. Droga!

Mas também

Já perdi o amor. Duas vezes na história

Ou projeção? Ou tramoia? Não confiem ((não confio)) nos poetas da hora

Pessoa já avisava)


Um dia talvez essas palavras

Que saem sem filtro de minha alma

Possam ressoar em algum lugar d’outro estar

Ser 

As vezes me confundo porque o bonito do verbo to be

É exatamente a imanência e a identidade fundidas 

I am é transitório 

No português não

Triste divagação 

Estou só a enrolar

Pra terminar um poema

Que também é fuga

Do compromisso do livro que fica pra depois

Do revirar intranquilo de tudo que já expus

De olhar pros meus poemas e filtrar minhas pendências

De terapia

E saudades

De uma alegria

Do que ficou…


Um dia irei publicar versos

Que revelarão

Aquilo que vazando de mim

Desmonta minhas barragens

Me destrói

Me consome

E me faz outra forma da água

Da alma que é fonte

E se deforma

Mas não sei esvai 






segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Gaveta 2019

 Tinha aquele CD da Aliesha que me apresentou ao rock noventista. E eu sei que ali tem gravado, entre outras músicas, Stairway to Heaven. Que apropriado. Escada do céu, que ela comprou, que eu descobri nas memórias de amor. Tinha o origame de dragão que ele me fez, Ele, que me ensinou sobre o carinho e o amor que hoje ofereço por aí. Tinha o carrinho que ela me deu, com um parabéns em japonês. Tinha o apito de jaguar. Três pokemons do Daniel. E o anel de serpente do meu avô escocês. Tinha a bebida que jurei beber com Júlia e Rômulo, e que está selada até hoje em idioma tcheco. Tinha foto do Diretório Acadêmico, ah, a política! Foto do intercâmbio. Foto da vez em que viajei com meus pais por Baltimore depois de ser demitido do meu emprego americano. Tinha uma foto, olhe só, de quando eu fiz capoeira. 7 anos. Um sorriso tão incauto. Tão feliz... ô paz. Tinha 13 cartas, que troquei com Humberto. Ah, Humberto, tinha toda sua poesia! Obrigado rapaz.

Tinha, bem lá no fundo, entre papéis, fotos e uns clipes passados, um segredo importante:

Que eu decidi, não vou contar por aqui 

Envelhecer

 De repente trinta e cinco                                    e eu aqui, sem saber   Desde 2020 O tempo escolheu ser                        ...