terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Maturidade

I. Prelúdio Astrológico

Saturno voltou pra me jogar na lona
e dizer que não se brinca com as previsões astrológicas
que mesmo fantasiosas, internalizei 
me jogar na lona e dizer: AMADUREÇA

Que já passou da hora

Saturno e suas mais de oitenta luas
comandadas pelo Titã do Tempo 
Reviraram incontrolável o meu mar interno
Oitenta vetores de maré em direções divergentes
e nuvens magnetizadas em auroras transcendentes
Tempestades frequentes, vórtices permanentes
me desorganizam de um jeito quase esquizofrênico

Cai, quebrado, e desfeito

Saturno, impiedoso com seu núcleo duro
Trouxe dias curtos, achatados em minha anedonia
e de ar pesado, em atmosférica Des-energia
que me deixaram, frequentemente, deitado
pesando o travesseiro na cabeça

Mas não esqueça:

Saturno, nesse retorno descaralhado
Promete inaugurar, com seus mil anéis pesados
a esperada era de Aquário
que desde os anos 2000 eu já ouvia
como esperança de uma vida mais bem quista

Tomara

Por Saturno derrubado,
eu perco a força
mas não a espera-verde
de crescimento 
e significado

II. Definição

Maturidade
é olhar para o espelho do banheiro
e entender que já não sou criança
para tentar, bobo e faceiro
resolver tudo com promessa e esperança

Maturidade
é saber que a palavra, escrita ou falada
é mesmo como a flecha, e atirada
tal qual à outra flecha, do tempo, vai sempre à frente
e não há retorno que não a reação da ação vigente

Maturidade
é acolher essas lições que vieram práticas
porque a teoria, até lê-se bonita
mas pouco modifica as forças pragmáticas
que só se sente vivendo a vida

Maturidade
É entender que o dicionário está errado
e ser adulto não é o último estágio
do permanente vir a ser humano
Ser adulto nem é consenso sano 

Maturidade
é assim, por exclusão, por divergência literária
Não ser mais um eu-criança desatento 
É aceitar, de queixo erguido a mortalha
das consequências /desejadas ou não/ 
de nosso intento

III. O espelho

vinte e nove anos
e fios de cabelo brancos
perdidos, agora, até no queixo
fio-de-barba, grosso, crespo

que eu arranco

e depois passo um creme frio
em vaidade que sei ser combate perdido
às rugas que dobram meu sorriso
E me fazem perceber o inesquecível:
estou envelhecendo
a olhos vistos

E então
talvez por isso
me olho a tento

e percebo no halo de meus olhos velhos
uma rima de firmeza, e calmaria, e também mistério

E entendo
que o entalhe duro desse reflexo secreto
só mesmo a dureza da vida
ralando joelhos sem anestesia
poderia esculpir etéreo
em minha córnea cor de pedra
em minha íris agora de homem férreo

No seguir do escrutínio então enxergo
outro fio
e mais outro, branco e tenro
e desisto

da empreitada do arranque

e assumo
as lições de saturno
e os segredos do tempo
que vêm, querendo ou não querendo

se já não sou jovem
ao menos sou
mais sério
mais velho
mais duro

Maturo

IV. Arrependimentos

Eu os carrego
e é deles todo esse poema, o desenho das minhas rugas, e a cor dos meus cabelos
Peço perdão
por quem fui até aqui
e faço oração
de sempre saber
assumir o erro, e aceitar o enterro, e carregar o peso
do que me molda para que eu admita aqui
ser imperfeito

V. Prece

Que não esqueça, de mim ou do outro
que fios interligados, partes do todo
devemos ambos ser cuidados, e respeitados, 
como surgimos ao formo;
Que eu reconheça o meu ser adulto
e embora mantenha atenção à criança
para que saia, e brinque, quando preciso
não a deixe assumir as rédeas de minhas andanças;
Que eu caminhe pela mata paciente
os pés calçados, os passos quietos, mas firmes, 
a arma em riste, mas as flechas de minhas palavras guardadas, 
usadas para me proteger, e não para ferir outrém, 
no explorar da mata;
Que eu saiba peneirar os sonhos e os quereres,
e combinar decentemente os seus aromas
no planejamento do alimento que pretendo me servir
Nem todos os sabores dos planos combinam
Crus muitos deles são tóxicos
E se demoram no fogo, a fome da alma pode não saber aguardar;
Que eu escale a montanha, diligente
E abrace no reflexo da pedra a minha sombra, parte essente
E persista na trilha da subida sempre à frente
E aceite o abrigo do mal tempo que se apresente
E o prazer do bom tempo quando se estende
E não esqueça, jamais esqueça, de alma e mente:
O pico da montanha é onde estão meus pés,
independente;

Amém




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