domingo, 16 de maio de 2021

Destilação

Entranha por entranha
Gota de sangue atras de gota de pus
Vai ser muito texto e lembrança
Mas eu vou tirar a dor de não te ter de mim

E viver tudo como experiência única
E saborear cada lágrima guardada
Cada berro de quebrar espelho que gritei a sós na minha casa
Cada poema catarse bizarra
Vai ser lindo por ser único dentro de mim

As tuas lições sempre ressoarão em mim
Teu carinho passado será efeito borboleta no meu ser estranho
E destilada a dor, será só beleza de toda essa vivência que oferecerei ao universo
É por querer essa bebida pura de amor bem filtrado
Que cavuco fundo nas feridas de nosso existir passado

Grito
Sangro
Choro
E me liberto assim
Gota a gota

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Maturidade

I. Prelúdio Astrológico

Saturno voltou pra me jogar na lona
e dizer que não se brinca com as previsões astrológicas
que mesmo fantasiosas, internalizei 
me jogar na lona e dizer: AMADUREÇA

Que já passou da hora

Saturno e suas mais de oitenta luas
comandadas pelo Titã do Tempo 
Reviraram incontrolável o meu mar interno
Oitenta vetores de maré em direções divergentes
e nuvens magnetizadas em auroras transcendentes
Tempestades frequentes, vórtices permanentes
me desorganizam de um jeito quase esquizofrênico

Cai, quebrado, e desfeito

Saturno, impiedoso com seu núcleo duro
Trouxe dias curtos, achatados em minha anedonia
e de ar pesado, em atmosférica Des-energia
que me deixaram, frequentemente, deitado
pesando o travesseiro na cabeça

Mas não esqueça:

Saturno, nesse retorno descaralhado
Promete inaugurar, com seus mil anéis pesados
a esperada era de Aquário
que desde os anos 2000 eu já ouvia
como esperança de uma vida mais bem quista

Tomara

Por Saturno derrubado,
eu perco a força
mas não a espera-verde
de crescimento 
e significado

II. Definição

Maturidade
é olhar para o espelho do banheiro
e entender que já não sou criança
para tentar, bobo e faceiro
resolver tudo com promessa e esperança

Maturidade
é saber que a palavra, escrita ou falada
é mesmo como a flecha, e atirada
tal qual à outra flecha, do tempo, vai sempre à frente
e não há retorno que não a reação da ação vigente

Maturidade
é acolher essas lições que vieram práticas
porque a teoria, até lê-se bonita
mas pouco modifica as forças pragmáticas
que só se sente vivendo a vida

Maturidade
É entender que o dicionário está errado
e ser adulto não é o último estágio
do permanente vir a ser humano
Ser adulto nem é consenso sano 

Maturidade
é assim, por exclusão, por divergência literária
Não ser mais um eu-criança desatento 
É aceitar, de queixo erguido a mortalha
das consequências /desejadas ou não/ 
de nosso intento

III. O espelho

vinte e nove anos
e fios de cabelo brancos
perdidos, agora, até no queixo
fio-de-barba, grosso, crespo

que eu arranco

e depois passo um creme frio
em vaidade que sei ser combate perdido
às rugas que dobram meu sorriso
E me fazem perceber o inesquecível:
estou envelhecendo
a olhos vistos

E então
talvez por isso
me olho a tento

e percebo no halo de meus olhos velhos
uma rima de firmeza, e calmaria, e também mistério

E entendo
que o entalhe duro desse reflexo secreto
só mesmo a dureza da vida
ralando joelhos sem anestesia
poderia esculpir etéreo
em minha córnea cor de pedra
em minha íris agora de homem férreo

No seguir do escrutínio então enxergo
outro fio
e mais outro, branco e tenro
e desisto

da empreitada do arranque

e assumo
as lições de saturno
e os segredos do tempo
que vêm, querendo ou não querendo

se já não sou jovem
ao menos sou
mais sério
mais velho
mais duro

Maturo

IV. Arrependimentos

Eu os carrego
e é deles todo esse poema, o desenho das minhas rugas, e a cor dos meus cabelos
Peço perdão
por quem fui até aqui
e faço oração
de sempre saber
assumir o erro, e aceitar o enterro, e carregar o peso
do que me molda para que eu admita aqui
ser imperfeito

V. Prece

Que não esqueça, de mim ou do outro
que fios interligados, partes do todo
devemos ambos ser cuidados, e respeitados, 
como surgimos ao formo;
Que eu reconheça o meu ser adulto
e embora mantenha atenção à criança
para que saia, e brinque, quando preciso
não a deixe assumir as rédeas de minhas andanças;
Que eu caminhe pela mata paciente
os pés calçados, os passos quietos, mas firmes, 
a arma em riste, mas as flechas de minhas palavras guardadas, 
usadas para me proteger, e não para ferir outrém, 
no explorar da mata;
Que eu saiba peneirar os sonhos e os quereres,
e combinar decentemente os seus aromas
no planejamento do alimento que pretendo me servir
Nem todos os sabores dos planos combinam
Crus muitos deles são tóxicos
E se demoram no fogo, a fome da alma pode não saber aguardar;
Que eu escale a montanha, diligente
E abrace no reflexo da pedra a minha sombra, parte essente
E persista na trilha da subida sempre à frente
E aceite o abrigo do mal tempo que se apresente
E o prazer do bom tempo quando se estende
E não esqueça, jamais esqueça, de alma e mente:
O pico da montanha é onde estão meus pés,
independente;

Amém




quinta-feira, 25 de junho de 2020

Solstício de Inverno


Solstício de Inverno: O dia mais curto do ano
Preludia o frio,
o vazio
e traz o clima propício ao meu tempo

E eu,
que não sou bruxo
Improviso um manto
Levanto minha adaga ritual
E esfaqueio a água pura na tigela de meus ancestrais!

A água, espantada
se espalha,
mas não se corta
se adapta, me molha
e eu grito de raiva

(O que pensei que aconteceria?)

Eu, que não sou bruxo
Nessa magia cirurgia inventada
Tentando extirpar de mim a dor
tentando acelerado transfigura-la
para crescer penas, e bater asas

(Como os Pássaros que você tatuava,
e admirava,
e têm a liberdade de dançar no ar
a leveza de viver-voar)

Não é possível!
Eu, impaciente comigo
quero logo que minha dor vire lembrança
e aprendizado
e força

Então eu grito de novo. Raiva.

E eu, que não sou bruxo,
decido correr para esvaziar a cabeça
quem sabe assim meu corpo entende do ar

e enquanto corro numa prece pouca
numa pressa louca
sinto o cheiro do mar
e meus pés cansados me pedem pra pisar na areia

gelada.
Mais fria ainda a água
Mas não quero perder o fio da meada
do instinto que tento me deixar guiar
deve haver alguma resposta mágica

então eu mergulho de cabeça
e me entrego à rainha do mar
e o corpo de minha mãe me envolve
mil alfinetadas
gelada.

O carinho da água dói cada centímetro
mas lá me sinto conectado com cada praia
cada lugar do mundo dos vivos
(toda vida começou em algum mar)
A dor conecta?
O choro enche o Mar?
Eu não entendo
Talvez não seja para entender
Num desejo que mistura acolhimento e dissolução eu quase fico
mas ainda estou vivo
e de Súbito emerjo:

respiro
sinto frio
tremo
E saio do mar

E eu, 
lembrando que não sou bruxo
volto logo para minha casa pra buscar calor
e enquanto me abraço com um casaco deitado no tapete da sala de estar
ainda sinto no fundo do peito um fiapo de dor
Mas cheiro o sal nos meus cabelos molhados
na água que escorre como se fosse as lágrimas que não consigo chorar
E olho
olho para minha ansiedade de chegar numa futura superação
e grito de novo.
                                                                                                                     Por que não sou bruxo?

Cansado.
Vencido por ele me distraio
E olha!
olha só, na sacada, a samambaia
crescendo discreta na rachadura da parede do prédio
Quem diria que ali haveria terra
para fixar alguma vida
planta severina

E eu
que não consigo transformar sua lembrança em minha cabeça com magia
tento aprender com a observação da planta
e a comunhão com o mar 
e o segredo da lua nova escondida no céu

a me embrulhar no casaco
acolher a chegada
e esperar, persistente, a passagem do inverno

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Visita Domiciliar

Pipas voavam por todos os lados nesse dia de céu azul
Era o tempo delas
Suas crianças e suas rabiolas, dançando no aterro do lado do mar, sem querer se punham a nos [cortejar!
Na passada já certa
até as primeiras vielas
daquele meu lugar de cuidar

Queria ser um pouco pipa
Mirar de cima a confusão de casas que se constituía aquela Comunidade que
sendo vertical, era Morro
pela história afro-brasileira, era Dendê
E por fim, como a parte que me cabe era trecho desse terreno todo, um trecho bem ali no fim da ilha, de onde se via toda aberta a Guanabara baia, era, óbvio, Boa Vista

Mas humano que sou subi seus becos a pé...
Embrenhei-me por sua tuberculosa umidade
Suas casas sem reboco
sempre me pareciam esboço
da própria arquitetura da existencialidade;

Bem,
viro uma esquina e me vem apertada saudade
passando lá pelo beco da Espada
não há mais Luz* e sua esparramada felicidade
Fumando maconha toda relaxada

Nas casas que entro procuro me fazer atento
À mais do que o paciente me fala,
mas como vive, se organiza, 
como é sua casa
"E que história é essa de ficar no quarto dos fundos, sem janela, mofo no teto, tudo fechado?"
"É que as vezes tem tiro na rua doutor, e no quarto da frente, com janela e brisa, fico muito assustado"
As vezes volto tão exausto que sou eu no fim do dia querendo um alento
Ah... Ser pipa solta no vento. Leve, leve (n)este momento.

Na volta, a vista que de fato é boa sempre me alivia
me inspira e meio que me recria
Ou quem o faz é dona Creuza*
que sempre encontro com a barriga ascítica e um vestido de deusa
E seus comentários tão cheios de vida
mesmo pra quem bebe uma dor, que pelas filhas admitidas,
é de um amor que nunca fechou as feridas

Termina a descida
e as vezes o céu contra-poente
em acerto com o mar logo ali na frente
Me dá uma paz colorida
… as vezes o peso da mente
Nubla tanto a vista da gente
Que só penso na dona Agradecida*
(enclausurada em sua casa, esquecida)

Chego à Clínica, e é o fim da Visita.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

140 Km de chuva

Cento e quarenta quilômetros de chuva
Uma viagem tensa, apertada
Penso em J. Penso em R.
Penso tanto que derrapo, e quase morro na estrada

A pista ali na serra é tão perigosa
Penso em falar com mãezinha, mas ela já anda tão preocupada
Penso na palestra e minha alma vaidosa
Paro, e tomo um café demorado, como quem não viaja por nada

Penso no buda, no amor, na vida que passa
Por um instante respiro, e sinto o vento frio
Consigo ficar ali, sem pensar em nada
Mas logo pego o carro, e sigo. Quase desisto, e volto pro Rio

São cento e quarenta quilômetros e não para de cair água
Quanto choro guardado nesse céu de Maio
Quando me pego repensando tudo que já pensei nessa longa jornada
Acabo por rir. Riso de sol na chuva da estrada.

Juiz de Fora é ali na esquina, e logo logo o tempo vira

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Linha Vermelha 21,9 km

Uma vez me disseram que na Ásia existe um rio amarelo e um rio vermelho, 
carregando a vida do topo dos Himalaias para o mar do círculo de fogo eles são um espetáculo da natureza
Aqui no Rio de Janeiro nós temos linhas
A vermelha me carrega. A amarela minha amiga Marina
E vão tantos quilômetros nessa linha
Pensamentos em fluxo do dia que se inicia
Do dia que termina
Do dia seguinte que se mistura ao anterior na densa neblina
Do tempo, da vida

Vão tantos quilômetros olhando extensões de favela e sua arquitetura bizarra
E tantos dias olhando a linda bacia que jaz poluída
Vão tantos quilômetros que as vezes quase cochilo... e meu coração dispara
Quilômetros que no crescer da vida, mesmo quando são de volta, são sempre só de ida

Há ainda na China uma linha vermelha do destino
Conecta todos aqueles que devem um dia se encontrar ou já se encontraram
E talvez seja nosso trabalho secreto desembaraçar os nós que neste fio se formam

Será que ha algum destino pra se encontrar na minha linha?
A linha vermelha do Rio de Janeiro?
A linha apagada no chão da velha highway
A linha!
A linha que corta a cidade maravilhosa
Os dias maravilhosos
Exaustivos, viciosos
A linha dos meus dias terrenos
Humanos, alegres, chorosos, serenos

Reflito, reflito. Acelero a 100 por hora, e reduzo só para evitar o radar. 
Mas sigo (n)a linha
Sabe-se lá para qual destino


domingo, 2 de abril de 2017

Poema de ontem

É primeiro de Abril
e tu me liga para me desejar beijos de boa noite

não atendo

É dia da mentira
penso nisso quando respiro e levanto o telefone
não atendo
não posso mentir se não sei o que é verdade

te quero
ou não te quero?
Nesse dia discuti profundamente nosso relacionamento com transeuntes e pseudoamigos bêbados
uma certeza é que penso em ti
e me preocupo com tua felicidade honesta

mas te quero
ou não te quero?
A verdade desaparece aí. E não se pode mentir quando se está em dúvida. 
Ou seria tudo mentira pura?

Penso em ti
não atendo
faço versos

E se de algum consolo serve toda essa secura, 
lembra daquele livro que tu me emprestou do Quintana
abre na página 39
se esconde no tempo daquele poema, em sua última estrofe

meu bem
desejo-te bem
mas não posso mentir:
há dúvida
te quero bem
mas te quero aqui?



Envelhecer

 De repente trinta e cinco                                    e eu aqui, sem saber   Desde 2020 O tempo escolheu ser                        ...